quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O gato

O que quer o gato?
O gato de olho no ato,
Danado, atento,
na espera do consumado fato
é bichano ágil diante do mundo lento.

É o gato do esbugalhado olho curioso
na espera da folia inesperada,
na espreita da hora alada,
do histérico mistério.
O que quer o gato?

Amando eu sigo


Eu tão vago
nesta doce vaga forma
que se chama vida
Porem a vida é pouca,
muitas noites no sonho,
muitos dias no mundo

Vestido com as roupas
de ansiedade difusa
         eu ando
          querendo chegar
           em algum lugar
            onde dizem
             que se pode amar,
se não achar
irei inventar


Eu perplexo
Com os seres complexos
que se inventam
e constroem a partir
do sêmen do destino

Saltitando
de luz em luz
eu sigo junto
com elementos
que me servem o luzir
por onde devo andar


Vivo
e sobrevivo
dos afetos
que transforma
a forma
deformada
dos amores cruéis
imperfeitos do mundo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DICA DE LEITURA




Um livro que desvenda os acontecimentos históricos com uma metodologia sem falhas e que se lê com um sorriso nos lábios.

"Foi como um simples tropeiro, às voltas com as dificuldades naturais do corpo e de seu tempo, que D. Pedro proclamou a Independên­cia."

O livro 1822 pretende mostrar que país era este que a corte de D. João deixava para trás ao retornar a Lisboa, em 1821. Vai falar do Grito do Ipiranga, das enormes dificuldades do Primeiro Reinado, da abdicação de D. Pedro, em 1831, sua volta a Portugal para enfrentar o irmão, D. Miguel, que havia usurpado o trono, e a morte em 1834.



Autor - Laurentino Gomes
Gênero - Historia
Nº de páginas 328
Editora - Ediouro
ISBN - 9788520924099
Acabamento - Brochura

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Traduzir-se

video
Poema de Ferreira Gullar interpretado na voz de Adriana Calcanhotto "Pura arte"



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar


http://literal.terra.com.br/ferreira_goullar


Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2007, seu livro Resmungos ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. O livro, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, reúne crônicas de Gullar publicadas no jornal "Folha de São Paulo" no ano de 2005. Foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009, Foi agraciado com o Prémio Camões 2010

Deixo como dica de leitura pra quem é amante da boa poesia

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sua hora José



Acorda José
que já é dia,
os pássaros já todos de pé,
não deixe a preguiça tomar cria.
Come teu pão surrado
e vai-te embora que já é hora,
não te perca na demora.

Pega o ônibus José,
porque seu balanço
imita a vida
e você que é gente
gosta de gente como agente

Tem gente que dorme na viagem,
que vive de miragem,
mesmo acordado continua no sonho

Não sonhe José,
não dorme José,
Cante José,
ame José,
viva José.
Porque a labuta te espera
na esfera da vida.

A grande missão,
construir riqueza
pra uma grande nação.
Trabalhe José
sem ter tempo pra tristeza
que é pra deixar suave teu coração

Tu trabalhas José,
que no teu retorno
nunca esqueça
que o leite é branco
e vem do trigo o pão

Sua hora é agora José,
teu coração é brando,
enche-o com suor e dignidade,
mostre a ele que você é grande
e pra mais ninguém


Ouça tua orquestra de máquinas,
o melódico tilintar cruel do metal.
Os ruídos fabris
que te falam
e não dizem nada

Alegra-te José, a vida
não é triste poesia,
as horas dançam,
o vento canta
e o tempo passa
na tua ambígua lavra diária

Quando se finda o dia
no capricho da rotina,
o alivio,
o sossego,
a sensação que o mundo
lá fora te aguarda

Esperam no portão
com gracejos as tuas crianças;
e da cozinha vem o beijo quente
e o sorriso lindo

No retorno, as tuas mãos
transbordantes do labor
trazem pra casa a certeza
do pão e do abrigo